02 agosto 2017

Que importa?



Que importa o sol grande e vermelho
no horizonte beijando o mar?
Que importa a lua daquela noite
que nos fez apaixonar?
Que importa o sonho do deserto
e esta vontade de amar?
Que importa a suavidade da brisa
e o beijo que nos faz arrepiar?
Que importa tudo o que eu digo
se não estás aqui comigo?

 

 

31 julho 2017

Histórias do Anoitecer LI

A marca indelével do teu olhar, despindo-me a alma, brincando com os meus botões, deixando-me o peito em alvoroço. Tinha sonhado contigo sem saber quem eras.
E agora sinto-me prisioneiro do meu próprio cárcere, e não quero fugir.
Fui nómada no deserto, capitão do mato no Brasil, centurião romano em Pula, monge escriba, romântico das letras no século XIX, e sempre te vi partir, ora porque te abri o caminho da fuga, ora porque casavas com outro, ora porque te levavam para outras paragens.
Como se estivesse no meio do mar sem bússola ou sextante. Fechar os olhos e imaginar o caminho até ti. Abrir a mão para sentir a distância. Consigo percorrê-la com o pensamento, chegando na tua mente como se fora uma carícia, um beijo suave, um roçar terno de pele.
E todas estas manifestações me atordoam a solidão, me iludem a realidade, e me mantêm vivo de esperança. As lágrimas brilham-me o olhar que, languidamente, perscruta o horizonte, esperando vislumbrar a tua silhueta que, finalmente, venha até mim.

28 julho 2017

Histórias do Anoitecer L

Ai, vida, que me pregas partidas umas atrás das outras! Então agora é assim?! Já não bastavam as ilusões e as rejeições? Nunca te apiedas deste pobre coração.
Ainda tenho comigo o cheiro da tua mão. Imaginas a tortura? Ter as cartas e não poder cartear? Saber que o jogo pode arruinar os jogadores, fora e dentro da mesa…
Mas se a vida, sim tu!, não me surpreendesse, então como me acharia? Carente dessa surpresa, e de todo o amor que ela encerra, e que não foi capaz de dar.
Vou sonhar. Vou querer. Vou calar. Vou falar. Vou fazer tudo aquilo que a minha razão deixar. Um braço de ferro de perder e ganhar. A lagarta saiu do seu casulo e só tu sabes como a apanhar. Chora, ri, para de esbracejar. Não sabes quanta água há para nadar. Não sabes se o deserto vai acabar. Mas sabes que o tempo começou, e não vai jamais parar.
Calmamente, tenho de regressar, sabendo que deixei mais um pouco de mim.

26 julho 2017

Histórias do Anoitecer XLIX

A bondade, de tudo o que se faz, é avaliada em função dos requisitos que cada indivíduo atribui ao facto, em seu benefício pessoal. Ser capaz de fazer algo pelo outro, sem interesse, é raro. E, por ser humano, se tornam estranhos os comportamentos que fogem a este paradigma.
Tenho um segredo no bolso, que alguém irá descobrir. E, como será descoberto, então é um segredo temporário.
Toda a paixão peregrina de joelhos, sangrando a terra sequiosa do nosso sacrifício. Imaginar as minhas mãos entranhando-se no teu cabelo, puxando, suavemente, a tua cabeça, até te renderes aos meus lábios. E quando o teu corpo ceder, tremendo pelo contacto firme da pele, deixarás libertar o que te oprime e te afasta do amor que renegas. A tua lágrima na minha boca. Um sonho feito da ilusão que me preenche o imaginário, segurando em pontas toda a minha existência arrastada pelo chão. Os braços fechados em ti. Corações que galopam o pensamento, que se interroga sobre o que acontecerá a seguir. Como tornar possível o que agora parece distante? Piano fechado numa arrecadação, desafinado, não percutido, empoeirado, esperando que a porta seja aberta para a luz do sol descobrir.

24 julho 2017

Histórias do Anoitecer XLVIII


Numa repetição constante, que não sei se me empurra para o passado, ou se exige que espere. Acontecem coisas extraordinárias quando confrontamos a verdade. Logo se descobre um mundo de insatisfações, rancores e vaidades, enfeitadas por desesperos solitários, que bem podiam ser diferentes, caso os desejos fossem naturais. A fuga para a frente, sem querer saber pormenores, é o sintoma de que muitas pessoas estão fechadas em si mesmas e, talvez por isso, o mundo se fecha para elas.
Serei imune a este sentido do caminho? Talvez não, também sou humano, com defeitos para evitar, e muito para aprender. No entanto, também tenho o corpo angelical. No limiar da descrença absoluta. Acima e abaixo das nuvens, sem ser visto por ninguém, chorando no meio da chuva. Próximo de cometer loucuras inimaginadas, só para sentir a humanidade no amor da carne. Tudo será decidido, não sei quando, mas estarei presente para assumir a vida que merecer.

18 julho 2017

(In)esperado...



Porque te vi na palma da mão,
na seda da franja do cabelo,
e no olhar perdido em mim…
Talvez entre um sim e um não,
querer encontrá-lo ou perdê-lo,
é a sorte de um destino assim…
 
Sou a lágrima do mal-amado,
alma perdida na história,
duelista caído em desgraça.
Os olhos falam, e digo calado,
que tenho na minha memória
as marcas que são tua graça…
 
De tão quebrado que ele está,
o meu coração só balbucia
sentimentos quase amordaçados.
E onde quer que o corpo vá,
espera encontrar, um dia,
um sentido para tantos passados

15 julho 2017

Histórias do Anoitecer XLVII

Ao longe, um gin, um cigarro, e a certeza de que tudo está controlado.
Aqui, um labirinto de emoções, cansaço, desmotivação.
Mas quando se aproximam, os sonhos aquecem as almas, e todo um passado se desmorona em análises frias, despertando gestos que preencheram anos em que a cegueira era o estado natural. Porque não viam? Não! Porque não agiam.
Fora tanto o medo, que o amor se transformou numa sensação estranha, receada, racionalizada, e por ora blindada atrás de um novo ser, que luta por ser ainda humano.
E é quando abrimos o coração, olhamos nos olhos e dizemos toda a verdade, que nos justifica e condena simultaneamente. Choram orações, pedidos intensos para que a magia do outro seja o sorriso que falta, a mão que segura, o verbo que estimula, a situação que se partilha, e o beijo que se eterniza, consagrando o que é mundano, e gravando na pedra a história do tal amor que não existe, mas que explica a razão de viver.
Tu és a minha verdade. O que serei eu?

14 julho 2017

Histórias do Anoitecer XLVI

Como se fora um mundo paralelo. Um aparecimento cheio de receios, muros e sinais de resistência. Uma vontade incontrolável de amar, porque sim. De construir amor, porque há atração. De não desperdiçar mais tempo. Mas, curiosamente, as atitudes não são iguais, evoluímos… a experiência dá-nos uma força que não tínhamos, um conhecimento que nos é útil e, porventura, algum discernimento para percebermos o que realmente importa.
Como se fora um mundo paralelo. Tudo pode ser diferente, porque não estamos aqui, mas onde o sonho sempre apontou a realidade alternativa. Após tudo que temos? O nada? Não, há sempre mais coisas que se encerram num olhar, que se escondem num trejeito de mãos, que nos acicatam a imaginação: e se?...
Como se fora um mundo paralelo. Uma vontade indomável de acertar, podendo toldar-nos a visão, tal é o querer. Uma maior calma e paciência. Um conformismo compreensivo sobre cada retrocesso, com a convicção de que vale a pena continuar. Se o que o nosso anjo nos dá é o melhor para nós, então resta-nos agradecer, ora porque temos de sofrer, ora porque vamos ver finalmente o que poderíamos ter visto há muito, que todos somos amor, e que no amor é a que a vida de realiza.

10 julho 2017

Histórias do Anoitecer XLV

Um dia retirarei as espoletas das granadas que me contornam a mente.
O sor(riso) de hoje emudeceu. Quisera gritar o porquê… mas tudo indica que é só mais um passo na direção do cadafalso.
Nesta prisão perpétua que não me deixa ver o sol, respirar o ar livre, ou mesmo adormecer.
Sei o que é o suplício de Tântalo, desde muito novo. Quem assim me fadou, queria que eu sofresse, porventura pagando a dor de outrem. Tudo o que conto e imagino são construções hiperbólicas sobre uma realidade que me traz de joelhos. Não posso sangrar mais, pois tudo se esvaiu de mim. Sou um espectro seco, qual múmia de um antepassado atribulado.
Mais um esforço para que tudo pareça bem neste teatro da vida, vazia, sem qualquer fundamento. Continuarei, imparável, a produzir o bem que a todos faz falta, como se fora um Scaramouche ou um Cyrano de Bergerac, que com o seu verbo apaixona, mas que tem de se esconder do amor, por ser feio e rejeitado.
E, no desatino da ária mais triste, ou ouvindo o Adágio para cordas de Samuel Barber, chego ao fim de mais um dia.

Histórias do Anoitecer XLIV

Nota: a numeração está certa. Há histórias que só verão a luz um dia...




Não, não sei onde vai dar este caminho que resolvi trilhar. Uma coisa sei, há flores nos meus pensamentos, que brotam viçosas de uma imaginação à solta, que sonha sobre o que poderia ou não acontecer. Sou argumentista, realizador e montador de um filme que se repete, sempre cheio de peripécias complicadas, enredos insuspeitados, e finais (in)felizes.
O herói não tem superpoderes, sendo uma alma vulgar que teima em voltar aqui, mas que deseja partir em direção ao pôr-do-sol, montado numa águia, senhora de exércitos formidáveis, que marcham sem parar.
A donzela é de porcelana fina, mas com uma dureza adquirida nas caravanas do deserto e nas rotas da seda, ligando dois mundos diferentes, atrás de um véu, que incandescia os nossos olhos.
O encontro de Marte e Vénus está marcado nas estrelas. A Lua espreita, tentando que alguma luz possa trespassar a noite, deixando perceber a aproximação inevitável. Os raios de Júpiter cruzam os céus, e chega Mercúrio com a boa nova: juntem-se os anéis de Saturno, que vai haver um enlace na Terra.
Inquietas, as estrelas, tremem de excitação. E começam a ribombar os tambores…