07 outubro 2017

Há poemas...

Há poemas que se dizem com os olhos
Tão perto do respirar que os lábios tremem
Sentindo que a pele se empolga
Num desatino que se prolonga no pescoço
Deixando o colo entreaberto ao toque
Em beijos aleatoriamente planeados
Perseguindo o arrepio que nos escorre pelo corpo
Provando a doçura de um cheiro único
O aroma de um sabor que é só teu
E a loucura do coração num carrossel.
 
Há poemas que são carícias na face
Afagos que se desejam e poucos dão
Palavras que forjam raízes de vida
Sons que nos levantam do chão
Músicas cantadas em suave melodia
Numa surdina pingada em terra seca
Um grito abafado de uma boca carente
Um lírio chorado de um rosto perfeito
Num campo alagado de amor nascente
Qual água cintilante, reflexo da nossa luz.
 
Ai, como tudo poderia ser diferente
Se a vontade não fosse madrinha
E os teus olhos de Karnak ou Luxor
Não se abeirassem perscrutando os meus
Num abraço cheio de flores e de mundo
Pincelado de interrogações e receios
Que se derretem pelo fogo das mãos
Pela verdade marcada a ferro no peito
Num assombro secular e divino sim!
Há poemas que são o espelho de nós!

23 setembro 2017

Transição

Abri os braços e acolhi
toda a mudança em mim,
um olhar que é diferente…
Talvez por isso eu te vi,
sentindo algo novo assim,
no coração depois da mente...
 
Vejo carência e medo,
angústia e desilusão,
vontades petrificadas.
Desiste-se, e ainda é cedo,
de encontrar uma mão,
as almas quedam geladas.
 
E quando as bocas se unem,
deixando morrer a agrura
num ímpeto de criação...
Sentir como os corpos se fundem
numa sinfonia sem partitura,
no culminar de uma união…

18 setembro 2017

Histórias do Anoitecer LV



Sim, eu sei que o sofrimento só existe se acreditarmos nele.
Sei que devo, que não devo… eu sei lá, é tanta obrigação… e eu faço, e às vezes não faço, e preciso de descansar, mas canso-me…
Saber, querer saber, a doença que alastra desde o Renascimento, para o bem, para o mal, e todos dependendo de alguns… e alguns sem vontade de ficar… e alguns com vontade de voltar… eu não.
E vou ler, mas não li o suficiente, e devia ter lido (dizem uns), e não podias ter lido (dizem outros), pois compreendem que não podemos ler tudo, estudar tudo, mas temos de o fazer…
E vou escrever… mas já escrevo muito… não, nada fazes, não presta, não é suficiente, tens de escrever, não quero escrever, mas escrevo…
Gostarias de ir, de ficar? Não sei. Que te apetece? Então, faz…





26 agosto 2017

Histórias do Anoitecer LIV

Será que tenho de deixar de acreditar?
Vejo em tantos olhos a amargura da desilusão. A desesperança leva à acomodação. Adaptamo-nos a sobreviver sem propósito, imaginando que o respirar é tudo. Por mais que cultive a verdade, continuo a colher frutos degenerados pela mentira e pelo engano. Há locais e pensamentos que me recordam as mágoas que transporto. O passado é sempre passado, pouco importa, mas as pessoas ficam.
Será que tenho de deixar de acreditar?
Sou náufrago do imaginado e inafundável navio da minha vida. Concretizo todos os sonhos de formas diferentes das planeadas. Mas continuo à deriva, agarrado aos destroços do coração, suspirando pela sintonização de um momento que ainda não ocorreu. Temo pelo tempo. E ainda penso que será nesta passagem que ocorrerá o comungar de olhares que já vislumbrei, mas que não retribuí. Não quero crer que seja uma ilusão. Quero que a fé, a esperança e o amor continuem a fazer parte do meu ser.
Será que tenho de deixar de acreditar?

19 agosto 2017

Histórias do Anoitecer LIII

Sinto o corpo esquartejado pelo amor. Dividido, sofrido, incompreendido, desejado, mal-amado e, acima de tudo, fora do tempo, sempre.
Já fui flagelado, coroado de espinhos e crucificado. Não como o corpo de Cristo, obviamente, mas na alma. Um verdadeiro cana-verde.
Nunca recebi quanto dei. Provavelmente, houve muitas vezes que não dei. Mas não tinha de dar. Não posso ser culpado de não amar. Mas sou culpado de amar, e por isso sofro.
Possam as lágrimas que verti construírem um novo rio. Uma nascente pura, sem toda a mácula que a vida nos vai pincelando. Não preciso de desejar ser inocente, porque o fui. Não preciso de desejar ser culpado, porque o fui. Preciso é de redenção, não porque tenha feito mal a alguém, dolosamente, mas porque sou culpado e vítima do amor.
Já morri várias vezes. Quero renascer num mundo novo…

02 agosto 2017

Que importa?



Que importa o sol grande e vermelho
no horizonte beijando o mar?
Que importa a lua daquela noite
que nos fez apaixonar?
Que importa o sonho do deserto
e esta vontade de amar?
Que importa a suavidade da brisa
e o beijo que nos faz arrepiar?
Que importa tudo o que eu digo
se não estás aqui comigo?

 

 

31 julho 2017

Histórias do Anoitecer LI

A marca indelével do teu olhar, despindo-me a alma, brincando com os meus botões, deixando-me o peito em alvoroço. Tinha sonhado contigo sem saber quem eras.
E agora sinto-me prisioneiro do meu próprio cárcere, e não quero fugir.
Fui nómada no deserto, capitão do mato no Brasil, centurião romano em Pula, monge escriba, romântico das letras no século XIX, e sempre te vi partir, ora porque te abri o caminho da fuga, ora porque casavas com outro, ora porque te levavam para outras paragens.
Como se estivesse no meio do mar sem bússola ou sextante. Fechar os olhos e imaginar o caminho até ti. Abrir a mão para sentir a distância. Consigo percorrê-la com o pensamento, chegando na tua mente como se fora uma carícia, um beijo suave, um roçar terno de pele.
E todas estas manifestações me atordoam a solidão, me iludem a realidade, e me mantêm vivo de esperança. As lágrimas brilham-me o olhar que, languidamente, perscruta o horizonte, esperando vislumbrar a tua silhueta que, finalmente, venha até mim.

28 julho 2017

Histórias do Anoitecer L

Ai, vida, que me pregas partidas umas atrás das outras! Então agora é assim?! Já não bastavam as ilusões e as rejeições? Nunca te apiedas deste pobre coração.
Ainda tenho comigo o cheiro da tua mão. Imaginas a tortura? Ter as cartas e não poder cartear? Saber que o jogo pode arruinar os jogadores, fora e dentro da mesa…
Mas se a vida, sim tu!, não me surpreendesse, então como me acharia? Carente dessa surpresa, e de todo o amor que ela encerra, e que não foi capaz de dar.
Vou sonhar. Vou querer. Vou calar. Vou falar. Vou fazer tudo aquilo que a minha razão deixar. Um braço de ferro de perder e ganhar. A lagarta saiu do seu casulo e só tu sabes como a apanhar. Chora, ri, para de esbracejar. Não sabes quanta água há para nadar. Não sabes se o deserto vai acabar. Mas sabes que o tempo começou, e não vai jamais parar.
Calmamente, tenho de regressar, sabendo que deixei mais um pouco de mim.

26 julho 2017

Histórias do Anoitecer XLIX

A bondade, de tudo o que se faz, é avaliada em função dos requisitos que cada indivíduo atribui ao facto, em seu benefício pessoal. Ser capaz de fazer algo pelo outro, sem interesse, é raro. E, por ser humano, se tornam estranhos os comportamentos que fogem a este paradigma.
Tenho um segredo no bolso, que alguém irá descobrir. E, como será descoberto, então é um segredo temporário.
Toda a paixão peregrina de joelhos, sangrando a terra sequiosa do nosso sacrifício. Imaginar as minhas mãos entranhando-se no teu cabelo, puxando, suavemente, a tua cabeça, até te renderes aos meus lábios. E quando o teu corpo ceder, tremendo pelo contacto firme da pele, deixarás libertar o que te oprime e te afasta do amor que renegas. A tua lágrima na minha boca. Um sonho feito da ilusão que me preenche o imaginário, segurando em pontas toda a minha existência arrastada pelo chão. Os braços fechados em ti. Corações que galopam o pensamento, que se interroga sobre o que acontecerá a seguir. Como tornar possível o que agora parece distante? Piano fechado numa arrecadação, desafinado, não percutido, empoeirado, esperando que a porta seja aberta para a luz do sol descobrir.

24 julho 2017

Histórias do Anoitecer XLVIII


Numa repetição constante, que não sei se me empurra para o passado, ou se exige que espere. Acontecem coisas extraordinárias quando confrontamos a verdade. Logo se descobre um mundo de insatisfações, rancores e vaidades, enfeitadas por desesperos solitários, que bem podiam ser diferentes, caso os desejos fossem naturais. A fuga para a frente, sem querer saber pormenores, é o sintoma de que muitas pessoas estão fechadas em si mesmas e, talvez por isso, o mundo se fecha para elas.
Serei imune a este sentido do caminho? Talvez não, também sou humano, com defeitos para evitar, e muito para aprender. No entanto, também tenho o corpo angelical. No limiar da descrença absoluta. Acima e abaixo das nuvens, sem ser visto por ninguém, chorando no meio da chuva. Próximo de cometer loucuras inimaginadas, só para sentir a humanidade no amor da carne. Tudo será decidido, não sei quando, mas estarei presente para assumir a vida que merecer.